Ministério Publico do Estado de Mato Grosso

TJCE: Paternidade ativa: a trajetória de um pai solo para a adoção da tão sonhada filha

sexta-feira, 08 de agosto de 2025, 16h18

A casa de José Paulo Cesário da Silva ganhou um colorido especial quando ele soube que sua tão sonhada filha estava perto de chegar. As paredes do quarto foram pintadas de rosa, enquanto as cômodas e prateleiras passaram a ser ocupadas por bonecas, pelúcias e brinquedos. Daí em diante, todos os dias dele são dedicados a Ana Paula, que atualmente está com um ano e cinco meses.

 

Desde jovem, o cozinheiro carregava consigo o sonho da paternidade. Ainda aos 20 anos, ele viu esse desejo aflorar cada vez mais, especialmente ao observar amigos se tornando pais. “Sempre tive vontade de ser pai, de formar minha família. Quando percebi que, pela minha sexualidade, não teria essa possibilidade pelas vias tradicionais, decidi buscar a adoção”, relata.

 

O primeiro passo foi ir ao Fórum Clóvis Beviláqua (FCB), em Fortaleza, onde foi acolhido e recebeu todas as orientações sobre a documentação necessária para concretizar a adoção. Mas o caminho não foi simples. José Paulo enfrentou o preconceito no momento em que tentou conseguir os atestados de saúde física e mental, que são obrigatórios, e um profissional questionou sua aptidão para a paternidade.

 

Mesmo assim, ele não desistiu e, tempos depois, com a ajuda de uma amiga, foi direcionado a uma outra unidade de saúde. “Minha colega me indicou a doutora Helena. Ela me acolheu e disse algo que eu nunca esqueci: ‘Pessoas são pessoas, e não é por causa de uma folha que você vai deixar de ter sua filha’ ”.

 

Em paralelo, o pai de José Paulo sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e passou a demandar mais atenção dele, que na época deixou o emprego formal para dar toda a assistência necessária. O sonho da adoção foi adiado. No caminho, veio também a pandemia da Covid-19. Em vários momentos, o cozinheiro pensou em desistir. “Mas algo me dizia: vai dar certo. Porque Deus não demora, Ele capricha.”

 

 Prateleira com bonecas, pelúcias e brinquedos
Na espera pela filha, cômodas e prateleiras foram ocupadas por bonecas, pelúcias e brinquedos

 

 

Enquanto isso, José Paulo foi amadurecendo a ideia da paternidade e participando dos cursos obrigatórios e das entrevistas psicossociais. Com a inclusão do nome dele no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), veio a certeza de que estava no caminho certo. Os encontros com os grupos de apoio à adoção fortaleceram esse sentimento. “Hoje o Estado do Ceará tem a Rede Adotiva e a Acalanto [grupos de apoio a pessoas que desejam adotar ou já adotaram, oferecendo suporte e informações sobre o processo]. Eu tive a oportunidade de passar por essa fase de aprender com as experiências de outros pais, ver as expectativas deles”, ressalta.

 

Ao saber que iria começar o processo de vinculação com a sua filha, José Paulo não conteve a emoção. Ele lembra de cada detalhe do dia em que viu Ana Paula pela primeira vez, ainda na instituição de acolhimento. “Assim que ela me viu, sorriu. A mãe social [profissional responsável por cuidar de crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional] passou ela pra mim, e ela não saiu mais do meu colo. Dormiu ali mesmo. A assistente social até comentou: ‘É a primeira vez que vejo ela sorrindo’”, relembra, com os olhos marejados.

 

A construção do vínculo foi diária. Ele recorda da dor de deixá-la no abrigo após as visitas. “Era como se eu deixasse um pedaço de mim, todos os dias.” E, ao receber a autorização para levá-la para casa, descreve: “Não tive medo. Não me arrependi. Foi o melhor dia da minha vida”.

 

 

Manuseio de uma fotografia de uma bebê de poucos meses de idade
Ao saber que iria começar o processo de vinculação com a filha, José Paulo não conteve a emoção

 

 

Hoje, José Paulo vive a paternidade com plenitude e conta com todo o apoio dos pais, que ficam com Ana Paula durante o dia. Mesmo trabalhando longe de casa, chega no fim da tarde para trocar fraldas, dar banho, preparar o mingau, e passear com Ana Paula, que agora já quer andar sozinha em vez de usar o carrinho rosa. “Ela tem uma personalidade forte. Quando gosta de alguém, sorri. Quando não, chora. Tem ciúmes dos brinquedos e não gosta que mexam neles”. Os dois ficam juntos até a hora de Ana Paula dormir. “Ela tem muita energia, o soninho só chega mesmo 22h, mas é uma criança que dorme a noite inteira. É a minha alegria”.

 

A chegada de Ana Paula transformou não apenas a rotina de José Paulo, como sua visão de mundo. “Antes eu trabalhava muito para ajudar meus pais. Hoje eu trabalho pensando no leite, na fralda, na pomada. E também penso em mim, na minha saúde, porque quero viver muitos anos para vê-la crescer”. José Paulo salienta que não se enxerga mais sozinho no mundo. “Hoje eu faço parte de algo. Converso com outros pais, compartilho experiências. E penso, sim, em ter mais um filho ou filha. Está nas mãos de Deus”.

 

Mais do que cumprir um papel, ele construiu uma relação baseada no afeto verdadeiro e no compromisso diário. Ele não espera retorno, apenas que, um dia, Ana Paula possa olhar para trás e lembrar: “Meu pai fez tudo por mim”.

 

 

Menina com pouco mais de um ano de idade, de costas, andando em direção a homem agachado
A chegada de Ana Paula transformou não apenas a rotina de José Paulo, como sua visão de mundo

 

 

 

Para tornar-se pretendente à adoção é necessário apresentar toda a documentação solicitada no Fórum da cidade onde se reside. Em seguida, os autos são encaminhados ao Ministério Público. Durante o procedimento, quem tiver interesse em adotar deverá participar de todas as etapas do curso psicossocial e jurídico. Uma vez confirmada a presença na preparação, haverá avaliações por meio de entrevistas e visitas.

 

Diante de um parecer favorável do Ministério Público acerca do relatório psicossocial, o caso é enviado para avaliação de uma juíza ou um juiz. Tendo o pedido deferido, as pessoas requerentes entram na fila para ingressar no SNA, devendo aguardar a vinculação à criança ou adolescente que apresente o perfil indicado previamente. Para saber mais clique AQUI

 

FONTE: TJCE


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