Ministério Publico do Estado de Mato Grosso
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Moço, acabamos sendo sete irmãos, em vez de dez

por ARI MADEIRA

terça-feira, 27 de maio de 2014, 09h38

“Ei, moço, a intensidade nas atitudes das pessoas, algumas vezes, pode estar relacionada a reações decorrentes de algum sofrimento intenso antecedente ou de algum desejo inconfessável (poder, dinheiro, reputação, sexo, fama, beleza…).

Salvo engano grosseiro a que estou sujeito, nem sempre, entretanto, aqueles que abraçam uma causa com perseverança e determinação são radicais fabricados no poço das tramas inaudíveis ou no submundo das frustrações. Por vezes, fazem-no por honra, solidariedade ou dever. Pois bem, com essa construção argumentativa que só faz sentido se for escrita num final de tarde chuvoso e frio de sexta-feira, tentarei avançar e emendar um final para esta conversa.

Saí do Fórum, agorinha mesmo, depois de tomar ciência da decisão em que a Juíza da Infância acolheu o pedido da Promotoria e determinou a expedição de ordem ao Município de Rondonópolis para, com o dinheiro bloqueado do Estado, dar cabo à falta de UTI pediátrica em nossa cidade.

Eu deveria estar muito contente, porém, ao chegar na Promotoria, entreguei-me ao espanto e revolta em razão do fato noticiado pela Santa Casa de Misericórdia, segundo a qual mais uma criança está à beira da morte, precisando de UTI pediátrica, com suspeita de ter sido agredida pelos próprios pais. Para não fugir à regra, a vaga não foi disponibilizada com a urgência solicitada pelos médicos.

Ei, moço, fiz minha parte, em dois atos:

I) Foi difícil, mas quase cinco milhões de verbas estaduais ficaram bloqueados durante mais de um ano, enquanto o Estado frustrava os prazos que foram concedidos, até que, finalmente, foi expedida autorização judicial para que o Município use o dinheiro e resolva o problema da UTI.

II) Da mesma forma, não foi fácil para ninguém pagar o IPTU deste ano, sendo certo que parte dele, conforme anunciado aos quatro ventos, está reservada para ações que impeçam as crianças de continuarem morrendo à míngua.

Minha sensatez me reprova e me obriga a guardar minha oração; não quero esconder as palavras, tampouco as consigo escrever com facilidade… Entretanto, dou-me ao direito de me expressar, pois perdi três irmãos após partos complicados e por falta de assistência adequada à minha mãe.

É isso mesmo, moço, acabamos sendo sete irmãos, em vez de dez. Não consigo parar de pensar em como seriam esses três meninos que se foram, seus rostos, seus sorrisos, nossas desavenças e nossos abraços. Bem sei, por eles, não dá para fazer mais nada, não vi seus rostos e nome eles não tiveram, não tiveram a chance de sorrir, chorar também não puderam.

Porém, moço, pelos que ainda tem o sopro de vida e por aqueles que ainda vêm, é preciso que o direito à vida tão festejado na Constituição Cidadã saia do papel e, neste caso específico, não vejo ninguém mais habilitado para consertar a casa do que um dos pedreiros que ajudou na construção.

Faça-se, sem burocracia, reuniões ou solenidades cansativas e deprimentes para serem tiradas fotos, como se elas fossem prova da paternidade de alguma coisa; sem formalidades irracionais ou interpretação torpe do princípio da legalidade; faça-se, de forma direta, transparente, imediata e segundo critérios dos profissionais da saúde, pois desta área, promotores, juízes e políticos, como já disse noutro lugar, são os que menos entendem..."

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