MPRJ: Reprodução 3D do assassinato de João Pedro ajudou na denúncia contra policiais civis que viraram réus
quarta-feira, 09 de março de 2022, 17h09
O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) utilizou a tecnologia de realidade virtual na denúncia contra os agentes de segurança pública que estiveram envolvidos na morte do adolescente João Pedro de Mattos Pinto.
O jovem de 14 anos foi baleado e morto durante uma operação conjunta da Polícia Federal, com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio, na noite de 18 de maio de 2020.
No último dia 10 de fevereiro, a Justiça aceitou a denúncia do MPRJ contra os policiais civis Mauro José Gonçalves, Maxwell Gomes Pereira e Fernando de Brito Meister, que desde então são réus por homicídio duplamente qualificado. Os agentes também foram denunciados por fraude processual.
Na denúncia, os investigadores contaram com a ajuda de uma nova tecnologia para fazer a reconstrução da cena do crime. Na opinião do promotor de Justiça Paulo Roberto Mello Cunha Junior, o instrumento não criou provas novas, mas reforçou e qualificou o que estava nos autos da investigação.
"Tudo que é apurado é levado ao ambiente virtual e nele é possível reproduzir as várias versões quantas vezes forem necessárias. Isso permitiu entender os pontos de vista, verificar a conduta de cada um (...) A tecnologia traz uma melhoria incomparável na qualidade da prova produzida", comentou Paulo Roberto.
Segundo o Ministério Público, a reconstrução da cena do crime nesse caso tinha como objetivos:
Nas imagens em 3D, os investigadores puderam saber exatamente em que locais os disparos de arma de fogo deixaram suas marcas. No vídeo, esses locais estão marcados em vermelho. Além dessa importante informação, o vídeo consegue dar detalhes como: o tamanho do muro da casa; qual a disposição dos quartos; e a visão dos envolvidos no dia da morte de João Pedro.
Caso João Pedro
A família e testemunhas afirmam que policiais chegaram atirando à casa onde João e amigos estavam, na Praia da Luz, em Itaoca, bairro de São Gonçalo. O rapaz foi atingido nas costas e levado pelos policiais para um helicóptero.
Parentes passaram a noite procurando o adolescente em hospitais e só acharam o corpo 17 horas depois, no Instituto Médico-Legal do Tribobó.
João brincava com amigos quando a operação chegou até a Praia da Luz. Um dos amigos do rapaz afirmou que policiais entraram no terreno e jogaram duas granadas, que detonaram. Na sequência, atiraram nas janelas. As paredes da casa ficaram crivadas de balas.
Os três policiais envolvidos nessa ação alegaram que perseguiam traficantes quando entraram na casa onde João Pedro e amigos estavam.
O laudo cadavérico de João Pedro indicou que ele foi atingido por um único disparo nas costas. O tiro acertou a parte posterior das costas, na altura das costelas, do lado direito. Foi encontrado no corpo do jovem um projétil de fuzil calibre 5,56.
De acordo com a denúncia apresentada pelo Ministério Público fluminense, enquanto aguardavam a chegada da equipe de peritos da Delegacia de Homicídios de São Gonçalo, Mauro, Maxwell e Meister alteraram fraudulentamente o local do crime, com a intenção de criar vestígios de suposto confronto com criminosos.
O MP apontou que os denunciados plantaram no local diversos explosivos, também uma pistola da marca Glock, calibre 9 milímetros, e posicionaram uma escada junto ao muro dos fundos do imóvel.
A investigação afirmou, ainda, que os policiais produziram marcas de disparos de arma de fogo junto ao portão da garagem do mesmo imóvel – tudo para se eximirem da responsabilidade criminal.
Ao denunciar os policiais, o MP também pediu a suspensão integral do exercício da função pública, a proibição de manter contato com testemunhas e de acessar as dependências de qualquer unidade da Polícia Civil. Todos os pedidos foram concedidos na decisão de quarta.
Nova tecnologia
A nova tecnologia que permite reconstituir em ambiente virtual a cena de um crime foi comprada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em dezembro de 2021.
A Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI/MPRJ), através da Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia (DEDIT/CSI), é a responsável por operar o novo equipamento que pode ajudar na investigação de crimes e acidentes no Rio de Janeiro.
Trata-se de um scanner a laser capaz de recriar em detalhes qualquer ambiente, com mapeamento em 360°, possibilitando uma imersão em realidade virtual nos locais.
Com a utilização dos óculos de realidade aumentada, é possível percorrer os locais, ver os pontos de vista dos envolvidos e fazer todo tipo de análise necessária para a investigação.
A nova tecnologia pode ser fundamental para investigações de crimes em áreas de domínio do tráfico ou de milícias.
Contudo, os especialistas do MP lembram que o scanner não substitui a realização da perícia no local. Isso porque o equipamento precisa ser utilizado no local do crime para coletar as informações do ambiente físico e transferir ao virtual.
No entanto, ao preservar a cena em ambiente virtual, os investigadores e peritos técnicos podem retornar à cena quantas vezes quiserem para trabalhar as diferentes hipóteses e confrontar versões sobre os acontecimentos.
"É uma importante ferramenta para o trabalho do Ministério Público com inegável retorno para toda a sociedade e para o Juízo, que vai poder formar seu convencimento com uma reprodução simulada de melhor qualidade visual, através da experiência de imersão naquele cenário delituoso reconstituído", destacou Eduardo Campos, coordenador de Segurança e Inteligência do MPRJ.
Além do escaneamento de local, a reconstrução em realidade virtual também toma como base parecer técnico do assistente técnico, laudo pericial oficial de reprodução simulada, depoimentos, entre outras informações.
Fonte: G1