Ministério Publico do Estado de Mato Grosso

Para promotor, quem ama não é capaz de matar

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008, 00h00

Número de vítimas cresce sem precedentes

De 2006 para ano seguinte, aumento de casos foi de 333%. Em pouco mais de 50 dias deste ano, cinco registros já ocorridos na Grande CuO número de crimes passionais (motivados por paixão) na Grande Cuiabá aumenta a cada ano numa escalada sem precedentes. Em 2006 foram cinco casos, subindo para 19 em 2007, um aumento de 333%. Neste ano, em menos de dois meses, foram cinco casos, o equivalente a total de um trimestre do ano passado. Os números são da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). Os crimes passionais representam em média 90% dos motivos dos assassinatos das mulheres.

O que chama a atenção é que dos cinco casos de janeiro até agora, quatro vítimas são mulheres e um é homem, executado a facadas pela ex-mulher que não se conformava com a separação. Para policiais da DHPP, o crime passional é um dos poucos que não existe forma de atuar na prevenção.

A psicóloga Helen Catarina Ramos Capistrano, que atua na terapia familiar de casais, não pensa assim. Segundo ela, o crime passional é oriundo de um ciúme doentio, patológico, e que atinge casais de todas as camadas sociais.

'Os casais de classe média e alta procuram ajuda especializada. Através da terapia, conseguem dominar o lado negativo', frisou. Ela acrescentou que a população de classe baixa não tem acesso a esse tipo de serviço.

As estatísticas comprovam a tese da psicóloga. Dos quase 30 assassinatos dessa natureza nos últimos três anos, em apenas dois as vítimas eram de classe média. Num deles, a mulher foi morta pelo marido, que se matou em seguida. O casal morava no Jardim Guanabara e foi um choque para a família.

'O perfil das vítimas é de mulheres de bairros afastados do Centro, que se separaram do marido, mas eles não aceitam em hipótese algum viver longe da ex-companheira. Os crimes são praticados a golpes de faca, embora em alguns a mulher tenha sido assassinada a tiros', relatou um policial da DHPP.

Neste ano, não foi diferente. No final de janeiro, a dona-de-casa Lucineide Alves Dias, de 42 anos, foi enforcada pelo ex-marido, o mototaxista Wilson Campos da Silva, de 43, que não aceitava a separação. O crime ocorreu no Jardim Gramado.

No bairro Canjica, Sueli Ramos da Silva, de 20, foi executada a tiros pelo ex-marido que matou também o então companheiro dela, José Arnaldo Dias da Silva. Na semana passada, Jociane Batista da Silva, de 31, foi assassinada a facadas no Jardim Brasil. O autor não era ligado a ela, mas trata-se do ex-marido da funcionária Doriete da Conceição, que morava com ela. Ele não aceitou a separação e matou a patroa em represália por dar apoio ao fim do relacionamento.

O crime passional é difícil de prevenir, mas fácil de esclarecer. Nos três crimes, os autores foram identificados. Wilson e o homem que matou Jociane foram presos em flagrante.

Crime passional não é mais sinônimo de atenuante. Pelo contrário. No entendimento do Ministério Público Estadual, passional é sempre um crime qualificado, o que aumenta a pena. 'É, no mínimo, um crime por motivo torpe (repugante) e pode ter recurso que dificultou a defesa por parte da vítima', observou o promotor criminal João Augusto Gadelha.

Para promotor, quem ama não é capaz de matar

'Quem ama não mata. Quem mata é porque está com desprezo, com raiva. Então, um crime desses passa a ser qualificado, aumentando a pena do autor. Crime passional é quando a pessoa ‘se mata’ também'. Essa é a definição de crime passional no entendimento do promotor criminal, João Augusto Gadelha, um dos três que atuam no Tribunal do Júri da Comarca de Cuiabá.

Segundo ele, hoje é uma tese superada o argumento de que se matou por amor estando sob forte emoção. Há algumas décadas, matar por amor era sinônimo de atenuante. Nos julgamentos de crimes passionais, a defesa tenta tirar a qualificadora para diminuir a pena. Os jurados, no entanto, não levam em contam e condenam o réu por homicídio qualificado.

Para o promotor, esse tipo de crime ilustra o 'despeito do macho preterido ou a vaidade da fêmea abandonada. No caso da mulher, geralmente ela manda matar, não praticando diretamente o assassinato'.

Gadelha se referia a um caso ocorrido há três anos, em que a mulher se separou do marido para ficar com o amante. Este também se separou da família dele. A mulher se arrependeu e mandou matar o amante. 'O amor é um sentimento nobre e não pode se transformar num amor-açougueiro', completou o promotor.

Jornal: Diário de Cuiabá

Jornalista: Adilson Rosa

24/02/08

Compartilhe nas redes sociais
facebook twitter
topo